Minha metáfora:
Eu estou na praia. Deitado na areia. Vejo o Sol e nuvens que ocupam o azul do céu. A maré sobe lenta e gradativamente. Você está no mar. Nada me preocupa. Apenas a indefinição entre morrer afogado e nadar.
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terça-feira, 4 de maio de 2010
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Constatação
Ele tem medo de mim. Se soubesse como sou inofensivo me abraçaria me apertaria contra seu tórax parcamente peludo me embalaria ao som do seu canto e me chamaria de seu, com a ferocidade de um posseiro.
Mas é o que ele faz.
Então ele não tem medo.
Mas é o que ele faz.
Então ele não tem medo.
Paradoxo
Eu queria muito escrever algo pesado, mas o que acontece é que eu estou leve.
Eu penso que escrever é algo misterioso. E acho escusas minhas motivações. Pois não escrevo, deponho. E ao depor, exponho o que é mais de mim do que eu mesmo. Exponho o élan de meus impulsos. Escancaro o que me parasita o coração.
Porém você matou este parasita.
E agora só sei ser leve.
E eu queria te odiar queria te cuspir na cara queria te exorcizar do meu de dentro queria te fazer pequeno te colocar na palma da mão te ventar para longe de mim e contemplar (num alívio) seu voo queria te enojar queria te surrar a face por 30 minutos queria gritar nos seus ouvidos um grito supersônico que estraçalhasse em nove mil quinhentos e sessenta e dois os ossos do seu canal auditivo.
E o meu querer se frustra na minha vontade.
E eu só sei te querer, como um louco, um infinito a mais por fração de instante que espero (paciente) por seu telefonema.
Eu penso que escrever é algo misterioso. E acho escusas minhas motivações. Pois não escrevo, deponho. E ao depor, exponho o que é mais de mim do que eu mesmo. Exponho o élan de meus impulsos. Escancaro o que me parasita o coração.
Porém você matou este parasita.
E agora só sei ser leve.
E eu queria te odiar queria te cuspir na cara queria te exorcizar do meu de dentro queria te fazer pequeno te colocar na palma da mão te ventar para longe de mim e contemplar (num alívio) seu voo queria te enojar queria te surrar a face por 30 minutos queria gritar nos seus ouvidos um grito supersônico que estraçalhasse em nove mil quinhentos e sessenta e dois os ossos do seu canal auditivo.
E o meu querer se frustra na minha vontade.
E eu só sei te querer, como um louco, um infinito a mais por fração de instante que espero (paciente) por seu telefonema.
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Paciência
Eu li Raduan Nassar, e ele me falou de paciência. Já é a terceira vez que recorro a Nassar nas minhas criações. Me perdoe a insistência, mas é tudo visceral e apropriado.
Minha leitura:
O homem está com fome Fome de que De fome Ele é convidado entra contempla avista estremece Há bondade naquelas vistas A HOMENS DE CORAGEM E BONDADE SE PERMITEM CERTAS LIBERDADES Acho que foi isso que disse Bukowski Começa o jogo Ou rito E ele come à mesa do velho um banquete invisível mas tão cruel como a clareza da vida E bebe do vinho etéreo mas há de fato álcool nas suas papilas gustativas Ele sofre com o capricho do velho por horas No seu estômago não há dor há esfolamento É uma cena penalizante este pobre verme Sinto pranto nas minhas pálpebras Enfim é a vida Petulante daquele que se dá ao luxo de chorar pela crueldade de quem é vítima Há redenção O homem é paciente Virtuoso O velho o acha um homem bom E então o acolhe É o filho Bom filho da casa À casa torna.
Sim, meu bem, eu sou paciente. Só gostaria que você me indicasse remédio para esta gastrite, esta úlcera, este ESFOLAMENTO que me habita as tripas quando do meu exercício de paciência.
Minha leitura:
O homem está com fome Fome de que De fome Ele é convidado entra contempla avista estremece Há bondade naquelas vistas A HOMENS DE CORAGEM E BONDADE SE PERMITEM CERTAS LIBERDADES Acho que foi isso que disse Bukowski Começa o jogo Ou rito E ele come à mesa do velho um banquete invisível mas tão cruel como a clareza da vida E bebe do vinho etéreo mas há de fato álcool nas suas papilas gustativas Ele sofre com o capricho do velho por horas No seu estômago não há dor há esfolamento É uma cena penalizante este pobre verme Sinto pranto nas minhas pálpebras Enfim é a vida Petulante daquele que se dá ao luxo de chorar pela crueldade de quem é vítima Há redenção O homem é paciente Virtuoso O velho o acha um homem bom E então o acolhe É o filho Bom filho da casa À casa torna.
Sim, meu bem, eu sou paciente. Só gostaria que você me indicasse remédio para esta gastrite, esta úlcera, este ESFOLAMENTO que me habita as tripas quando do meu exercício de paciência.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Noite
Era madrugada. Eu estacionei em frente ao seu prédio. Ele me perguntou se eu desceria, eu hesitei, tendencioso, na verdade eu quero, mas há muito champanhe na minha cabeça e muito torpor nos meus sentidos, então dorme aqui, que mal há? nenhum, amanhã eu acordo verdadeiramente cedo, basta o sol nascer, problema nenhum.
Eu tranquei o carro, ele abriu o portão do prédio, eu entrei, subi as escadas logo atrás dele, que tropeçou relapso num degrau sorrateiro, parece que há bastante do embriagamento em ti também, não, é costume, de queda? não, de ansiedade.
Ele abriu a porta do apartamento, sugeriu com os dedos que fizéssemos silêncio e me conduziu sem demora para a insanidade do seu quarto, fecha a porta, e a toalha? do lado de dentro, é uma baderna, sei, você dorme no colchão, comigo, eu te deixo ocupar a cabeceira, eu me inverto, quer uma bermuda? não, prefiro de cuecas, sinta-se a vontade.
Ele me falou que não queria falar dos fantasmas, que eles o assombravam ainda, mas que ele não mais queria o pavor daqueles espectros. Deitado, ele acariciou minhas pernas, e eu, deitado, acariciei seus pés. Suas mãos certeiras acariciaram minhas nádegas firmes, invadiram a clausura da minha cueca, os dedos roçaram meu ânus trêmulo e ele tentava alcançar meu pênis rígido e vibrante. Cuidado, desculpa, é melhor dormirmos, não precisa se desculpar, eu acho até prazeroso ser livre, então seja, é o álcool que me deixa hesitante e você ainda povoa minha sanidade com porquês e dúvidas retóricas.
Ele levantou do colchão e apagou a luz. E repetiu calma e solenemente, como que seguindo um ritual, o protocolo daqueles carinhos. Ele se deitou ao meu lado e me abraçou com olhos, braços e pernas. E eu cedi. Eu lambia e chupava o seu sexo compulsivamente e havia gosto de macho naquilo. A minha saliva transbordava da minha boca e eu me sentia mais homem a cada bocada. A sua glande conversava com a minha garganta e era como se houvessem pirilampos na minha laringe. De súbito ele me pôs de quatro e tentou me penetrar. E eu o deixei conduzir meu corpo, como numa dança. Eu quero você, seu cu, seu de dentro, vem, me marca, me ocupa, me arrebenta de gozo, me fode, para. Desculpa fazer isso com você, mas eu não consigo. Tudo bem, não fique nervoso, é melhor dormir.
Eu dormi um sono tempestuoso e agitado. Eu podia sentir o respirar profundo e compassado daquele homem e, por vezes, naquele colchão estreito, nossos corpos se chocavam e se desvencilhavam, num ballet precário, mas sublime. Dormiu? não, é difícil dormir assim, como? assim.
Eu acordei pelo nascer do sol, esperei o despertador tocar, fiquei um tempo do lado daquele corpo que dormia leve, suguei um tanto aprazível daquele calor de vida, levantei-me, coloquei minha roupa, debrucei no chão ao lado do colchão, eu vou trabalhar, não vai, que crueldade, são 6 e 20, você me acha desprezível? de forma nenhuma, vá, nos vemos a noite, não te levo a porta, não precisa, bom trabalho, merda, bons trabalhos, um beijo, outro.
Com minha mochila nas costas, desci as escadas, sai pelo portão, entrei no carro e dirigi até o trabalho ao som daquela música antiga que tocou no rádio a 5, 6 anos atrás.
Minha cabeça estava naquele corpo que havia ficado entorpecido no colchão. E de pensar no que eu quis, mas não me permiti fazer, pensei que havia sido bastante cruel, não só com ele, mas comigo mesmo. Meu sexo concordou. Decidi esperar que ele me ligasse ao acordar.
E foi assim. Ele me ligou, bom dia, bom dia, eu quero me redimir com você e comigo, eu quero ir a sua casa, cozinhar para você, conversar sobre a simplicidade da vida e depois trepar até que a exaustão seja algo inalcançável, então vem, eu vou.
Entrei no carro, e dirigi cantando até o momento em que aquele caminhão cruzou imprudentemente a avenida, tentei desviar, choquei-me contra a mureta de segurança, que se despedaçou, permitindo que meu carro despencasse de uma altura de 15 metros, estraçalhando-se naquele córrego raso e mal cheiroso. E eu morri contente enquanto ele me esperava naquele colchão estreito.
Eu tranquei o carro, ele abriu o portão do prédio, eu entrei, subi as escadas logo atrás dele, que tropeçou relapso num degrau sorrateiro, parece que há bastante do embriagamento em ti também, não, é costume, de queda? não, de ansiedade.
Ele abriu a porta do apartamento, sugeriu com os dedos que fizéssemos silêncio e me conduziu sem demora para a insanidade do seu quarto, fecha a porta, e a toalha? do lado de dentro, é uma baderna, sei, você dorme no colchão, comigo, eu te deixo ocupar a cabeceira, eu me inverto, quer uma bermuda? não, prefiro de cuecas, sinta-se a vontade.
Ele me falou que não queria falar dos fantasmas, que eles o assombravam ainda, mas que ele não mais queria o pavor daqueles espectros. Deitado, ele acariciou minhas pernas, e eu, deitado, acariciei seus pés. Suas mãos certeiras acariciaram minhas nádegas firmes, invadiram a clausura da minha cueca, os dedos roçaram meu ânus trêmulo e ele tentava alcançar meu pênis rígido e vibrante. Cuidado, desculpa, é melhor dormirmos, não precisa se desculpar, eu acho até prazeroso ser livre, então seja, é o álcool que me deixa hesitante e você ainda povoa minha sanidade com porquês e dúvidas retóricas.
Ele levantou do colchão e apagou a luz. E repetiu calma e solenemente, como que seguindo um ritual, o protocolo daqueles carinhos. Ele se deitou ao meu lado e me abraçou com olhos, braços e pernas. E eu cedi. Eu lambia e chupava o seu sexo compulsivamente e havia gosto de macho naquilo. A minha saliva transbordava da minha boca e eu me sentia mais homem a cada bocada. A sua glande conversava com a minha garganta e era como se houvessem pirilampos na minha laringe. De súbito ele me pôs de quatro e tentou me penetrar. E eu o deixei conduzir meu corpo, como numa dança. Eu quero você, seu cu, seu de dentro, vem, me marca, me ocupa, me arrebenta de gozo, me fode, para. Desculpa fazer isso com você, mas eu não consigo. Tudo bem, não fique nervoso, é melhor dormir.
Eu dormi um sono tempestuoso e agitado. Eu podia sentir o respirar profundo e compassado daquele homem e, por vezes, naquele colchão estreito, nossos corpos se chocavam e se desvencilhavam, num ballet precário, mas sublime. Dormiu? não, é difícil dormir assim, como? assim.
Eu acordei pelo nascer do sol, esperei o despertador tocar, fiquei um tempo do lado daquele corpo que dormia leve, suguei um tanto aprazível daquele calor de vida, levantei-me, coloquei minha roupa, debrucei no chão ao lado do colchão, eu vou trabalhar, não vai, que crueldade, são 6 e 20, você me acha desprezível? de forma nenhuma, vá, nos vemos a noite, não te levo a porta, não precisa, bom trabalho, merda, bons trabalhos, um beijo, outro.
Com minha mochila nas costas, desci as escadas, sai pelo portão, entrei no carro e dirigi até o trabalho ao som daquela música antiga que tocou no rádio a 5, 6 anos atrás.
Minha cabeça estava naquele corpo que havia ficado entorpecido no colchão. E de pensar no que eu quis, mas não me permiti fazer, pensei que havia sido bastante cruel, não só com ele, mas comigo mesmo. Meu sexo concordou. Decidi esperar que ele me ligasse ao acordar.
E foi assim. Ele me ligou, bom dia, bom dia, eu quero me redimir com você e comigo, eu quero ir a sua casa, cozinhar para você, conversar sobre a simplicidade da vida e depois trepar até que a exaustão seja algo inalcançável, então vem, eu vou.
Entrei no carro, e dirigi cantando até o momento em que aquele caminhão cruzou imprudentemente a avenida, tentei desviar, choquei-me contra a mureta de segurança, que se despedaçou, permitindo que meu carro despencasse de uma altura de 15 metros, estraçalhando-se naquele córrego raso e mal cheiroso. E eu morri contente enquanto ele me esperava naquele colchão estreito.
sexta-feira, 12 de março de 2010
Voo #4043
eu andava como quem segue. segue seguro, de si, de mim, de todo o mundo. era elipsoidal o meu caminho, por vezes espiral, quiçá labiríntico. menos importante que a forma, era o tônus do meu caminhar. seu ritmo. sua cadência. sua essência.
eu andava como quem urra de dor. e chora. não um choro melodramático, um choro dos calhordas, dos crápulas; não, este não. era um choro tremendamente cruel. daqueles que é preferível sorver arsênico do que derramar. eu andava assim. com uma dor e muito elegante. alinhadíssimo.
ela foi. eu não quis ficar . fui como quem vai.
e o poeta disse que há pedras, e há. cascalhos, pedregulhos, granitos, meteoros. achei que ele era uma pedra. ele parou, se colocou em minha frente como um obstáculo se coloca frente ao puro sangue inglês (negro, que galopa descompassadamente, rumo a lá). e o garanhão menosprezou a pedra, quis chutar, coicear, empinar, pinotear, abanou vertiginosamente sua cabeça, a crina brilhou. ele era forte. era cavalar. ele só me pediu um cigarro. eu não, não tinha. vai embora? eu vou, vou. é cedo, fica. não, eu danço. que bom, eu construo... me beija. não, eu te quero, só por hoje. não, eu nego, eu não. toma. o que? é o meu rol de costelas, uma por uma. pra que? é pra você poder ver o que há cá dentro. me conta. não, é preciso que se veja, pra isso me mutilei, pra você ver o meu de dentro. (hesita) (que mal?) (nenhum...) (abre a caixa de Pandora) (ela o aprisiona) eu dei na pedra um coice, crente na existência da pedra. ela rolou. antes, rocei meu focinho, de leve, e meu olfato cheirou melancolia. a pedra chorou, leite das pedras.
com medo eu corri, a perna estalando, o coração numa taquicardia, a boca agreste, a vista âmbar, o corpo em movimento inercial. não era pedra, era rochedo.
ele me profanou como um meteoro devasta um astro. ele me fez pó. poeira cósmica. ele era homem disfarçado de menino. acho que era mais menino mesmo, mas também era homem. e eu queria. queria ele. por uma noite. por todas as noites. queria. mas eu fugi.
fui ao encontro de tudo, após correr, e tudo me impulsionava a ele.
inclusive ele me impulsionou a ele.
e quando eu me preparava para disparar num último galope ele me laçou pelas patas. e eu caí. num tombo só. o chão espancou meus ossos e ele me arrastou sem piedade por infinitos até seus pés. e quando eu achei que ele ia me pisar e me chamar de fera, quando achei que ele ia me domesticar, ele me ergueu, me envolveu nos braços sedentos e soprou:
eu te quero porque você é fera.
ele me beijou como se beija um lírio. e foi beleza que cegava os sentidos. que dopava a alma. e o tempo que antes era curto, desdobrou-se quanticamente, e ele me beijou durante o instante de um raio, infinito, eterno.
e ele me apertava. me sugava a língua, me roubava o quente do corpo.
eu gosto do seu beijo. que bom que você voltou. é, eu gosto do seu beijo. é, voltei. nem sempre, hoje sim. sua pele é macia. é voltei, nem sempre. é pétala de morango. você cheira embriagamento e nicotina, mas eu gosto. eu quero cheirar o que te agrada. eu gosto da sensação... pelo com pelo. gosto da vermelhidão. gosto de como agride o microespaço e transforma o universo. você é inteligente. eu quero te abraçar até que minha pele murche. eu quero te abraçar tanto que o carinho vire agressão. eu queria que com um abraço nossas carnes se metamorfoseassem em um ponto. ponto? sim, ponto. é lá que cabe todo o tamanho disto aqui. seu pau é forte. o seu é vida. como é que isto é tão belo, meu Deus?
ele me deixou no carro. eu dirigi como se eu pilotasse uma borboleta. que me deixou no ninho. eu adormeci leve. e breve. como quem tem ânsia de viver o prometido.
ontem, ele: eu te encontro onde for.
ontem, eu: te espero.
na espera: eu varro toda a casa com minha ansiedade, eu estraçalho todos os papéis vencidos, eu transformo lixo em serpentina, eu lavo os pires como se lavasse prataria, eu organizo o hieróglifo da minha vida, eu danço pra você na sua ausência, eu falo de você aos tucanos da minha janela, eu almoço Raduan Nassar e ele me alimenta.
você não chega.
eu te busco.
você responde.
você vem, diz.
eu te espero, adormecido, não é clichê. eu durmo. eu hiberno. a espera cansa.
eu acordo num pesadelo.
eu começo a me desesperar.
eu chamo por você.
você responde.
você vem, diz.
eu te espero, com os acordes do meu violão. toco todas as canções da memória. você não chega.
o desespero retorna.
cadê? caminho. eu me preocupo, porque você vai ao teatro às 20 e são 17. eu queria que o teatro não tivesse nascido. se você vier, o teatro morre. sacrifica o teatro por mim, que em breve eu te devoro.
-
de ele, agora é você.
-
você chega. eu te resgato. quando subimos naquele elevador nossos corpos eram estátuas, mas nossos pensamentos eram sonhos. você entra na minha casa e me beija. e o mundo poderia murchar todo rumo ao seu próprio centro que não tinha como nossos corpos murcharem.
nós nos por horas.
eu quero que seja assim. mas eu tenho muito que me impede. existe ela, mas quero você, macho, garanhão. eu sei, é tudo um erro. eu não posso arrancar os três corações, jogar numa travessa e acionar a batedeira. eu sei que eu preciso ser sereno. eu queria que ela morresse, como morreu o meu, o seu pai. eu queria que tudo morresse. queria que tudo sangrasse até vazar tudo pelo ralo do oco. e que só restasse o eu e o você. mas não é assim. não espere o que eu não te prometi. mas você quer. mas eu não vou. se é assim, eu não quero nunca ser obstáculo para o seu galope, mas lembre-se que uma vez você foi empecilho para o meu... você é cruel. é por isso que eu te desejo. obrigado por ser meu oásis neste deserto de esperança.
-
ele foi embora. prometeu voltar. nunca mais o vi. nunca, lugar inexistente. não, não para mim. ele parou meu galope. num susto. e agora a pedra virou meteoro. lançou-se contra meu território, causou devastação e seguiu sua órbita. seu galope. e em mim só restou desesperança. o oásis secou. o cavalo fraturou as patas. e será sacrificado.
eu andava como quem urra de dor. e chora. não um choro melodramático, um choro dos calhordas, dos crápulas; não, este não. era um choro tremendamente cruel. daqueles que é preferível sorver arsênico do que derramar. eu andava assim. com uma dor e muito elegante. alinhadíssimo.
ela foi. eu não quis ficar . fui como quem vai.
e o poeta disse que há pedras, e há. cascalhos, pedregulhos, granitos, meteoros. achei que ele era uma pedra. ele parou, se colocou em minha frente como um obstáculo se coloca frente ao puro sangue inglês (negro, que galopa descompassadamente, rumo a lá). e o garanhão menosprezou a pedra, quis chutar, coicear, empinar, pinotear, abanou vertiginosamente sua cabeça, a crina brilhou. ele era forte. era cavalar. ele só me pediu um cigarro. eu não, não tinha. vai embora? eu vou, vou. é cedo, fica. não, eu danço. que bom, eu construo... me beija. não, eu te quero, só por hoje. não, eu nego, eu não. toma. o que? é o meu rol de costelas, uma por uma. pra que? é pra você poder ver o que há cá dentro. me conta. não, é preciso que se veja, pra isso me mutilei, pra você ver o meu de dentro. (hesita) (que mal?) (nenhum...) (abre a caixa de Pandora) (ela o aprisiona) eu dei na pedra um coice, crente na existência da pedra. ela rolou. antes, rocei meu focinho, de leve, e meu olfato cheirou melancolia. a pedra chorou, leite das pedras.
com medo eu corri, a perna estalando, o coração numa taquicardia, a boca agreste, a vista âmbar, o corpo em movimento inercial. não era pedra, era rochedo.
ele me profanou como um meteoro devasta um astro. ele me fez pó. poeira cósmica. ele era homem disfarçado de menino. acho que era mais menino mesmo, mas também era homem. e eu queria. queria ele. por uma noite. por todas as noites. queria. mas eu fugi.
fui ao encontro de tudo, após correr, e tudo me impulsionava a ele.
inclusive ele me impulsionou a ele.
e quando eu me preparava para disparar num último galope ele me laçou pelas patas. e eu caí. num tombo só. o chão espancou meus ossos e ele me arrastou sem piedade por infinitos até seus pés. e quando eu achei que ele ia me pisar e me chamar de fera, quando achei que ele ia me domesticar, ele me ergueu, me envolveu nos braços sedentos e soprou:
eu te quero porque você é fera.
ele me beijou como se beija um lírio. e foi beleza que cegava os sentidos. que dopava a alma. e o tempo que antes era curto, desdobrou-se quanticamente, e ele me beijou durante o instante de um raio, infinito, eterno.
e ele me apertava. me sugava a língua, me roubava o quente do corpo.
eu gosto do seu beijo. que bom que você voltou. é, eu gosto do seu beijo. é, voltei. nem sempre, hoje sim. sua pele é macia. é voltei, nem sempre. é pétala de morango. você cheira embriagamento e nicotina, mas eu gosto. eu quero cheirar o que te agrada. eu gosto da sensação... pelo com pelo. gosto da vermelhidão. gosto de como agride o microespaço e transforma o universo. você é inteligente. eu quero te abraçar até que minha pele murche. eu quero te abraçar tanto que o carinho vire agressão. eu queria que com um abraço nossas carnes se metamorfoseassem em um ponto. ponto? sim, ponto. é lá que cabe todo o tamanho disto aqui. seu pau é forte. o seu é vida. como é que isto é tão belo, meu Deus?
ele me deixou no carro. eu dirigi como se eu pilotasse uma borboleta. que me deixou no ninho. eu adormeci leve. e breve. como quem tem ânsia de viver o prometido.
ontem, ele: eu te encontro onde for.
ontem, eu: te espero.
na espera: eu varro toda a casa com minha ansiedade, eu estraçalho todos os papéis vencidos, eu transformo lixo em serpentina, eu lavo os pires como se lavasse prataria, eu organizo o hieróglifo da minha vida, eu danço pra você na sua ausência, eu falo de você aos tucanos da minha janela, eu almoço Raduan Nassar e ele me alimenta.
você não chega.
eu te busco.
você responde.
você vem, diz.
eu te espero, adormecido, não é clichê. eu durmo. eu hiberno. a espera cansa.
eu acordo num pesadelo.
eu começo a me desesperar.
eu chamo por você.
você responde.
você vem, diz.
eu te espero, com os acordes do meu violão. toco todas as canções da memória. você não chega.
o desespero retorna.
cadê? caminho. eu me preocupo, porque você vai ao teatro às 20 e são 17. eu queria que o teatro não tivesse nascido. se você vier, o teatro morre. sacrifica o teatro por mim, que em breve eu te devoro.
-
de ele, agora é você.
-
você chega. eu te resgato. quando subimos naquele elevador nossos corpos eram estátuas, mas nossos pensamentos eram sonhos. você entra na minha casa e me beija. e o mundo poderia murchar todo rumo ao seu próprio centro que não tinha como nossos corpos murcharem.
nós nos por horas.
eu quero que seja assim. mas eu tenho muito que me impede. existe ela, mas quero você, macho, garanhão. eu sei, é tudo um erro. eu não posso arrancar os três corações, jogar numa travessa e acionar a batedeira. eu sei que eu preciso ser sereno. eu queria que ela morresse, como morreu o meu, o seu pai. eu queria que tudo morresse. queria que tudo sangrasse até vazar tudo pelo ralo do oco. e que só restasse o eu e o você. mas não é assim. não espere o que eu não te prometi. mas você quer. mas eu não vou. se é assim, eu não quero nunca ser obstáculo para o seu galope, mas lembre-se que uma vez você foi empecilho para o meu... você é cruel. é por isso que eu te desejo. obrigado por ser meu oásis neste deserto de esperança.
-
ele foi embora. prometeu voltar. nunca mais o vi. nunca, lugar inexistente. não, não para mim. ele parou meu galope. num susto. e agora a pedra virou meteoro. lançou-se contra meu território, causou devastação e seguiu sua órbita. seu galope. e em mim só restou desesperança. o oásis secou. o cavalo fraturou as patas. e será sacrificado.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Para Fábio
Eu não sei o que acontece. Eu achei que não tinha chão, a vertigem me consumiu, pensei que ia cair, daí chorei. Mas a manhã tem me trazido ondas de euforia, e eu resolvi pedir socorro. Vocês me ouviram, graças a Deus. E rapidamente se mobilizaram. E eu fui ficando cada vez mais feliz, pela simples possibilidade de felicidade. E a manhã foi passando com mais serenidade e eu consegui até almoçar com o paladar mais limpo. Mas a cama é lembrança fatal, daí eu chorei de novo. Foi quando vocês chegaram. Me resgataram. E eu sorri, porque vocês estavam ali. Foi numa tarde de queijos, vinhos e croissants, eu sangrei minha vida toda para vocês em uma hemorragia e vocês beberam meu sangue e cuspiram rosas brancas no meu rosto e eu queria mas eu não conseguia mais chorar. E eu que não estava entendo nada, e eu que estava vivendo na inércia dos fatos desde aquela sexta-feira, de súbito entendi tudo. Subitamente a vida parou, como nos segundos de um desastre de automóvel. Entedi que não havia o que entender. A vida não carece de entendimento. O que a vida precisa é de ser vivida. E de novo eu estava confortável com a atmosfera deste mundo louco e era alegria que não cabia no meu sorriso e era contentamento que não parava de galopar. E eu consegui ver de novo aquele cavalo branco a correr, correr muito, sem saber porque, sem saber para onde, sem saber sequer em que tempo, sem saber de absolutamente nada, a correr simplesmente pela necessidade latejante de FUGA, de fugir do aqui para chegar lá, bem longe, e então freiar, sentir ardentes os músculos da pata e, sem respiro, contemplar o mar. O nosso mar eram aquelas árvores. A nossa Paris era aquela grama alta da Pampulha. O nosso ponto de referência neste mundo insano era Belo Horizonte. Vocês são magos. A sua magia é transmutar os sentimentos. Vocês pinçaram a ansiedade do meu peito, escavaram violentamente uma fenda e despejaram amor. Amor pelo que eu sou amor pelo que somos nós amor pela vida amor pelo viver amor. E eu que sempre achei o amor um sentimento pesado demais, um fardo, difícil de carregar, entendi como ele pode ser leve quando se divide. E era tanto amor e álcool que a importância dele foi diminuindo, não a importância que dá valor, mas a importância que dá tamanho. E ele ficou tão pequeno que eu pude colocá-lo na palma da mão, soprar e ver ele voar um voo leve como daquelas plantas de algodão. Ele voou, e meu coração ainda dói ao contemplar seu voo, mas é uma dor de quem amou muito, não de quem sofreu, entendem? Uma dor que me faz querer GAR GA LHAR. E ser muito mais feliz. E quando eu pensava que a tarde não poderia ser mais arrebatadora, me vem aquele livro e me ensina sobre a paciência. Nos ensina. E eu, meu Deus, que não estava entendendo nada, de súbito entendi tudo. E havia carinho sem ressalvas, sem medidas. E eu que escrevi uma vez que amar tranquilo é amar sem se preocupar com nada, finalmente amei tranquilo. Vocês me ensinaram muito: que não há diferença entre vida e viver que apesar de pensarmos ser tão simples a vida tornamos tão complicado o ato de viver. Vocês me ensinaram a SIMPLIFICAR o ato de viver. E o que me fez ainda mais etereamente feliz foi a descoberta logo após a revelação. Foi me deparar com a certeza de que vocês enxergam minha alma, muito além da minha carne. E isto me deu ESPERANÇA. Vocês me alimentam com a esperança que eu necessito para acreditar na vida no viver no mundo no futuro no amanhã no sol que nasce a cada dia. De vocês eu engulo a esperança que me faz esperar pelo nascer diário do sol. Vocês me fazem acreditar na salvação da humanidade e das coisas em decomposição. Como no eterno retorno, eu sempre volto a ser o que era o que é minha essência minha semente. Eu não sei o que acontece, mas talvez eu saiba. Acho que sei. Sei. É amor que não finda.
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