Eram cerca de 23 horas daquele sábado estranho. Ele não sabia. Mesmo assim foi. Chegou, aguardou pacientemente. Entrou. Lá nada mais do que almas vazias. Um questionamento: “Será que elas sabem por que existem, meu Deus?” Ele tenta ser alguém que ele não é, gostaria de poder agradar. Agradar o que? Ele não sabe, mas imagina.
Ele detesta aquela condição a qual se lançou. Detesta aquele cheiro de cigarro, aquelas garrafas flutuantes, aquele barulho de percussão. Ele (absurdamente) pensa que gostaria que todo aquele lugar fosse varrido por uma epidemia qualquer. Ele se conforta imaginando a completa destruição, o caos, os destroços daquele antro, e a morte de toda aquela corja.
De repente cai em si e pensa que é novo ainda, e que conseguirá superar.
Ouve coisas. Desinteressado ouve as imbecis que conversam de assuntos ainda mais imbecis que elas. Uma proeza. Aéreo, atenta para as vozes de macho que arrombam seus ouvidos, falando de assuntos ainda mais machistas que eles.
Eles eram três. Falavam de veados. Gesticulavam, usavam seus corpos viris ao mesmo tempo em que urravam com vozes imperativas. Ele pensa que em um universo tão apático, um pouco de criatividade poderia salvar alguns minutos de sua vida.
Imagina os três homens nus envolta dele. Excita-se ao ver que é bem menor que eles. Mais frágil. Vulnerável. Adora esta condição. No olhar deles, ardor e destruição.
Ele enlouquece apenas pela possibilidade de ser queimado e destruído.
Ele deseja que aquela tensão dure o tempo de um gozo.
Dura infinitamente. Pensa: “é vantajoso usar a imaginação.”
Repentinamente os três homens lançam-se sobre seu corpo esguio. Eles se esfregam contra ele, mordem suas carnes, lambem seus buracos, cospem na sua face, e penetram violenta e animalescamente qualquer espaço que clame por prazer.
Aquilo se estende por dias, meses, anos. Ele já perdeu até a noção do tempo.
Ele ri compulsivamente, chega a pensar que vai morrer. Pede para morrer. E grita, pede cada vez mais, não consegue se contentar com nada, tudo é muito pouco!
E o ritual continua (perpetuamente?), ele é apertado contra aqueles dorsos fortes, espancado por aqueles membros duros, arranhado por unhas leoninas. Ele quase não tem forças. Ele sofre, e adora.
Os três homens são cruéis. Eles deliram porque subjugam, e ele se emociona por ser subjugado.
Ele é subjugado como um bicho. No meio daquele turbilhão em tecnicolor ele vislumbra a imagem de três selvagens monstruosos que caçam um veado campeiro. E chora, porque é a coisa mais delicadamente bela que ele já viu.
E no momento daquele choro os homens despejam uma enxurrada de fluídos em seu corpo magro e pulsante.
Ele grita, um grito ensurdecedor. Parece que sua existência foi expandida a um plano de felicidade inalcançável.
Ele está no chão. Os homens de pé, arqueados, arfantes, molhados. Guerreiros. Vencedores.
Ele se contrai por alguns segundos, e em seguida se abre, como uma flor que encontrou sua primavera.
Os homens se agacham, deitam-se ao seu lado, e o abraçam. Não sabem de onde vem aquela vontade de proteger o que eles acabaram de destruir.
Ele então goza freneticamente. Se debate como num estado de convulsão. O grito não cessa.
Os homens o acalmam delicadamente, como se aquela flor que se abriu fosse a última possibilidade de salvação.
Eles morrem juntos, emaranhados, como víboras gigantescas ao se acasalarem.
Desperta então para a realidade. Vê-se no mesmo lugar de antes, naquela mesma condição execrável. Acredita, porém, que um pedaço singular de sua existência foi salvo. Ainda que por alguns minutos.
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segunda-feira, 5 de abril de 2010
sexta-feira, 12 de março de 2010
Voo #4043
eu andava como quem segue. segue seguro, de si, de mim, de todo o mundo. era elipsoidal o meu caminho, por vezes espiral, quiçá labiríntico. menos importante que a forma, era o tônus do meu caminhar. seu ritmo. sua cadência. sua essência.
eu andava como quem urra de dor. e chora. não um choro melodramático, um choro dos calhordas, dos crápulas; não, este não. era um choro tremendamente cruel. daqueles que é preferível sorver arsênico do que derramar. eu andava assim. com uma dor e muito elegante. alinhadíssimo.
ela foi. eu não quis ficar . fui como quem vai.
e o poeta disse que há pedras, e há. cascalhos, pedregulhos, granitos, meteoros. achei que ele era uma pedra. ele parou, se colocou em minha frente como um obstáculo se coloca frente ao puro sangue inglês (negro, que galopa descompassadamente, rumo a lá). e o garanhão menosprezou a pedra, quis chutar, coicear, empinar, pinotear, abanou vertiginosamente sua cabeça, a crina brilhou. ele era forte. era cavalar. ele só me pediu um cigarro. eu não, não tinha. vai embora? eu vou, vou. é cedo, fica. não, eu danço. que bom, eu construo... me beija. não, eu te quero, só por hoje. não, eu nego, eu não. toma. o que? é o meu rol de costelas, uma por uma. pra que? é pra você poder ver o que há cá dentro. me conta. não, é preciso que se veja, pra isso me mutilei, pra você ver o meu de dentro. (hesita) (que mal?) (nenhum...) (abre a caixa de Pandora) (ela o aprisiona) eu dei na pedra um coice, crente na existência da pedra. ela rolou. antes, rocei meu focinho, de leve, e meu olfato cheirou melancolia. a pedra chorou, leite das pedras.
com medo eu corri, a perna estalando, o coração numa taquicardia, a boca agreste, a vista âmbar, o corpo em movimento inercial. não era pedra, era rochedo.
ele me profanou como um meteoro devasta um astro. ele me fez pó. poeira cósmica. ele era homem disfarçado de menino. acho que era mais menino mesmo, mas também era homem. e eu queria. queria ele. por uma noite. por todas as noites. queria. mas eu fugi.
fui ao encontro de tudo, após correr, e tudo me impulsionava a ele.
inclusive ele me impulsionou a ele.
e quando eu me preparava para disparar num último galope ele me laçou pelas patas. e eu caí. num tombo só. o chão espancou meus ossos e ele me arrastou sem piedade por infinitos até seus pés. e quando eu achei que ele ia me pisar e me chamar de fera, quando achei que ele ia me domesticar, ele me ergueu, me envolveu nos braços sedentos e soprou:
eu te quero porque você é fera.
ele me beijou como se beija um lírio. e foi beleza que cegava os sentidos. que dopava a alma. e o tempo que antes era curto, desdobrou-se quanticamente, e ele me beijou durante o instante de um raio, infinito, eterno.
e ele me apertava. me sugava a língua, me roubava o quente do corpo.
eu gosto do seu beijo. que bom que você voltou. é, eu gosto do seu beijo. é, voltei. nem sempre, hoje sim. sua pele é macia. é voltei, nem sempre. é pétala de morango. você cheira embriagamento e nicotina, mas eu gosto. eu quero cheirar o que te agrada. eu gosto da sensação... pelo com pelo. gosto da vermelhidão. gosto de como agride o microespaço e transforma o universo. você é inteligente. eu quero te abraçar até que minha pele murche. eu quero te abraçar tanto que o carinho vire agressão. eu queria que com um abraço nossas carnes se metamorfoseassem em um ponto. ponto? sim, ponto. é lá que cabe todo o tamanho disto aqui. seu pau é forte. o seu é vida. como é que isto é tão belo, meu Deus?
ele me deixou no carro. eu dirigi como se eu pilotasse uma borboleta. que me deixou no ninho. eu adormeci leve. e breve. como quem tem ânsia de viver o prometido.
ontem, ele: eu te encontro onde for.
ontem, eu: te espero.
na espera: eu varro toda a casa com minha ansiedade, eu estraçalho todos os papéis vencidos, eu transformo lixo em serpentina, eu lavo os pires como se lavasse prataria, eu organizo o hieróglifo da minha vida, eu danço pra você na sua ausência, eu falo de você aos tucanos da minha janela, eu almoço Raduan Nassar e ele me alimenta.
você não chega.
eu te busco.
você responde.
você vem, diz.
eu te espero, adormecido, não é clichê. eu durmo. eu hiberno. a espera cansa.
eu acordo num pesadelo.
eu começo a me desesperar.
eu chamo por você.
você responde.
você vem, diz.
eu te espero, com os acordes do meu violão. toco todas as canções da memória. você não chega.
o desespero retorna.
cadê? caminho. eu me preocupo, porque você vai ao teatro às 20 e são 17. eu queria que o teatro não tivesse nascido. se você vier, o teatro morre. sacrifica o teatro por mim, que em breve eu te devoro.
-
de ele, agora é você.
-
você chega. eu te resgato. quando subimos naquele elevador nossos corpos eram estátuas, mas nossos pensamentos eram sonhos. você entra na minha casa e me beija. e o mundo poderia murchar todo rumo ao seu próprio centro que não tinha como nossos corpos murcharem.
nós nos por horas.
eu quero que seja assim. mas eu tenho muito que me impede. existe ela, mas quero você, macho, garanhão. eu sei, é tudo um erro. eu não posso arrancar os três corações, jogar numa travessa e acionar a batedeira. eu sei que eu preciso ser sereno. eu queria que ela morresse, como morreu o meu, o seu pai. eu queria que tudo morresse. queria que tudo sangrasse até vazar tudo pelo ralo do oco. e que só restasse o eu e o você. mas não é assim. não espere o que eu não te prometi. mas você quer. mas eu não vou. se é assim, eu não quero nunca ser obstáculo para o seu galope, mas lembre-se que uma vez você foi empecilho para o meu... você é cruel. é por isso que eu te desejo. obrigado por ser meu oásis neste deserto de esperança.
-
ele foi embora. prometeu voltar. nunca mais o vi. nunca, lugar inexistente. não, não para mim. ele parou meu galope. num susto. e agora a pedra virou meteoro. lançou-se contra meu território, causou devastação e seguiu sua órbita. seu galope. e em mim só restou desesperança. o oásis secou. o cavalo fraturou as patas. e será sacrificado.
eu andava como quem urra de dor. e chora. não um choro melodramático, um choro dos calhordas, dos crápulas; não, este não. era um choro tremendamente cruel. daqueles que é preferível sorver arsênico do que derramar. eu andava assim. com uma dor e muito elegante. alinhadíssimo.
ela foi. eu não quis ficar . fui como quem vai.
e o poeta disse que há pedras, e há. cascalhos, pedregulhos, granitos, meteoros. achei que ele era uma pedra. ele parou, se colocou em minha frente como um obstáculo se coloca frente ao puro sangue inglês (negro, que galopa descompassadamente, rumo a lá). e o garanhão menosprezou a pedra, quis chutar, coicear, empinar, pinotear, abanou vertiginosamente sua cabeça, a crina brilhou. ele era forte. era cavalar. ele só me pediu um cigarro. eu não, não tinha. vai embora? eu vou, vou. é cedo, fica. não, eu danço. que bom, eu construo... me beija. não, eu te quero, só por hoje. não, eu nego, eu não. toma. o que? é o meu rol de costelas, uma por uma. pra que? é pra você poder ver o que há cá dentro. me conta. não, é preciso que se veja, pra isso me mutilei, pra você ver o meu de dentro. (hesita) (que mal?) (nenhum...) (abre a caixa de Pandora) (ela o aprisiona) eu dei na pedra um coice, crente na existência da pedra. ela rolou. antes, rocei meu focinho, de leve, e meu olfato cheirou melancolia. a pedra chorou, leite das pedras.
com medo eu corri, a perna estalando, o coração numa taquicardia, a boca agreste, a vista âmbar, o corpo em movimento inercial. não era pedra, era rochedo.
ele me profanou como um meteoro devasta um astro. ele me fez pó. poeira cósmica. ele era homem disfarçado de menino. acho que era mais menino mesmo, mas também era homem. e eu queria. queria ele. por uma noite. por todas as noites. queria. mas eu fugi.
fui ao encontro de tudo, após correr, e tudo me impulsionava a ele.
inclusive ele me impulsionou a ele.
e quando eu me preparava para disparar num último galope ele me laçou pelas patas. e eu caí. num tombo só. o chão espancou meus ossos e ele me arrastou sem piedade por infinitos até seus pés. e quando eu achei que ele ia me pisar e me chamar de fera, quando achei que ele ia me domesticar, ele me ergueu, me envolveu nos braços sedentos e soprou:
eu te quero porque você é fera.
ele me beijou como se beija um lírio. e foi beleza que cegava os sentidos. que dopava a alma. e o tempo que antes era curto, desdobrou-se quanticamente, e ele me beijou durante o instante de um raio, infinito, eterno.
e ele me apertava. me sugava a língua, me roubava o quente do corpo.
eu gosto do seu beijo. que bom que você voltou. é, eu gosto do seu beijo. é, voltei. nem sempre, hoje sim. sua pele é macia. é voltei, nem sempre. é pétala de morango. você cheira embriagamento e nicotina, mas eu gosto. eu quero cheirar o que te agrada. eu gosto da sensação... pelo com pelo. gosto da vermelhidão. gosto de como agride o microespaço e transforma o universo. você é inteligente. eu quero te abraçar até que minha pele murche. eu quero te abraçar tanto que o carinho vire agressão. eu queria que com um abraço nossas carnes se metamorfoseassem em um ponto. ponto? sim, ponto. é lá que cabe todo o tamanho disto aqui. seu pau é forte. o seu é vida. como é que isto é tão belo, meu Deus?
ele me deixou no carro. eu dirigi como se eu pilotasse uma borboleta. que me deixou no ninho. eu adormeci leve. e breve. como quem tem ânsia de viver o prometido.
ontem, ele: eu te encontro onde for.
ontem, eu: te espero.
na espera: eu varro toda a casa com minha ansiedade, eu estraçalho todos os papéis vencidos, eu transformo lixo em serpentina, eu lavo os pires como se lavasse prataria, eu organizo o hieróglifo da minha vida, eu danço pra você na sua ausência, eu falo de você aos tucanos da minha janela, eu almoço Raduan Nassar e ele me alimenta.
você não chega.
eu te busco.
você responde.
você vem, diz.
eu te espero, adormecido, não é clichê. eu durmo. eu hiberno. a espera cansa.
eu acordo num pesadelo.
eu começo a me desesperar.
eu chamo por você.
você responde.
você vem, diz.
eu te espero, com os acordes do meu violão. toco todas as canções da memória. você não chega.
o desespero retorna.
cadê? caminho. eu me preocupo, porque você vai ao teatro às 20 e são 17. eu queria que o teatro não tivesse nascido. se você vier, o teatro morre. sacrifica o teatro por mim, que em breve eu te devoro.
-
de ele, agora é você.
-
você chega. eu te resgato. quando subimos naquele elevador nossos corpos eram estátuas, mas nossos pensamentos eram sonhos. você entra na minha casa e me beija. e o mundo poderia murchar todo rumo ao seu próprio centro que não tinha como nossos corpos murcharem.
nós nos por horas.
eu quero que seja assim. mas eu tenho muito que me impede. existe ela, mas quero você, macho, garanhão. eu sei, é tudo um erro. eu não posso arrancar os três corações, jogar numa travessa e acionar a batedeira. eu sei que eu preciso ser sereno. eu queria que ela morresse, como morreu o meu, o seu pai. eu queria que tudo morresse. queria que tudo sangrasse até vazar tudo pelo ralo do oco. e que só restasse o eu e o você. mas não é assim. não espere o que eu não te prometi. mas você quer. mas eu não vou. se é assim, eu não quero nunca ser obstáculo para o seu galope, mas lembre-se que uma vez você foi empecilho para o meu... você é cruel. é por isso que eu te desejo. obrigado por ser meu oásis neste deserto de esperança.
-
ele foi embora. prometeu voltar. nunca mais o vi. nunca, lugar inexistente. não, não para mim. ele parou meu galope. num susto. e agora a pedra virou meteoro. lançou-se contra meu território, causou devastação e seguiu sua órbita. seu galope. e em mim só restou desesperança. o oásis secou. o cavalo fraturou as patas. e será sacrificado.
quarta-feira, 10 de março de 2010
Para Ju
Pode.
Tudo.
Porque tudo é permissível a quem, além do gostar puro e incongruente, mostra na alma, na palavra e na carne a que veio.
Vem de um longe vizinho ao meu, e aqui vai estabelecendo morada.
Pode, é claro. Pode também ficar.
Ocupa da tua existência o carnaval da minha vida, que ele precisa muito da força de uma nova colombina.
Uma alma que tem sede, suga o sumo de outra que transborda.
A minha alma gosta da sua sem cronologia.
Pode sim, claro.
Porque de certo posso eu, também.
Certo?
Tudo.
Porque tudo é permissível a quem, além do gostar puro e incongruente, mostra na alma, na palavra e na carne a que veio.
Vem de um longe vizinho ao meu, e aqui vai estabelecendo morada.
Pode, é claro. Pode também ficar.
Ocupa da tua existência o carnaval da minha vida, que ele precisa muito da força de uma nova colombina.
Uma alma que tem sede, suga o sumo de outra que transborda.
A minha alma gosta da sua sem cronologia.
Pode sim, claro.
Porque de certo posso eu, também.
Certo?
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Necessidade
E não é preciso se desesperar com a extensão do tempo ou com a intensidade das coisas acontecidas.
Nem vá falar de saudades infundadas ou de dores de membros fantasmagóricos. E as lágrimas de sertão, só valem para matar a sede de almas ciganas.
A precisão é do que é bom. Cabe a cada ser o julgamento do bom. O que há de ser bom, os necessitados hão de tomar para si. O que não há de ser, são só saudades inúteis, dores invisíveis e choro seco.
Nem vá falar de saudades infundadas ou de dores de membros fantasmagóricos. E as lágrimas de sertão, só valem para matar a sede de almas ciganas.
A precisão é do que é bom. Cabe a cada ser o julgamento do bom. O que há de ser bom, os necessitados hão de tomar para si. O que não há de ser, são só saudades inúteis, dores invisíveis e choro seco.
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